terça-feira, 19 de abril de 2011

O QUE É A CONSCIÊNCIA, O QUE É O “EU”.

"O Eu é o que a pessoa sente a respeito de si própria." (Skinner, 1991, p.45.)




CONSCIÊNCIA E COMPORTAMENTO VERBAL

Lígia Maria de Castro Marcondes Machado
Instituto de Psicologia – USP

Examina-se aqui a consciência na perspectiva do Behaviorismo Radical. Pode-se entender a consciência como a capacidade de descrever o que se está fazendo, de forma verbal, manifesta ou encoberta. A consciência também tem a ver com o controle do comportamento por regras. Seguir regras é ser consciente, no sentido de que quem se comporta "sabe o que está fazendo". O Behaviorismo Radical considera o operante verbal e a consciência como aspectos distinguidores do homem; ambos são produto da seleção pela conseqüência: o operante verbal ao nível do condicionamento operante; e a consciência ao nível da seleção de culturas.
Descritores: Consciência. Comportamento verbal. Behaviorismo.

A perspectiva que vou apresentar aqui com relação ao estudo da consciência é a do Behaviorismo Radical. O Behaviorismo Radical é uma filosofia da Psicologia que considera como seu objeto de estudo o comportamento dos organismos. Considera que seu programa de pesquisa visa descobrir de que variáveis o comportamento é função, procurando-as na história filogenética e ontogenética do organismo e localizando-as no ambiente presente deste organismo.

Comportamento tem uma conceituação abrangente, para justificar o radical do nome - Behaviorismo Radical - e para fundamentar a coerência do Modelo. Por comportamento, designa-se um conjunto de funções que promovem a interação do organismo com o ambiente (Skinner, 1984). Envolve agir, pensar e sentir. Enquanto caminho pela sala, estou me comportando; enquanto penso no que vou dizer em seguida, estou me comportando; enquanto sinto a ansiedade característica de me expor ao público, também estou me comportando.

A posição é, então, monista: não há divisão do organismo em mente e corpo, que acarretaria na definição da Psicologia como a ciência da mente. O organismo é considerado como um todo e a Psicologia se ocupa de sua interação com o ambiente, garantida pelo comportamento. A diferença entre agir, pensar e sentir é o grau de acessibilidade que permitem tanto ao observador externo quanto à própria pessoa que se comporta (Skinner, 1982).

As variáveis que determinam o comportamento são variáveis ambientais que exercem sua determinação ao longo da história do organismo enquanto membro de uma espécie, enquanto indivíduo e enquanto membro de uma cultura. Em todas as instâncias, o modo de ação do ambiente é a seleção pela consequência.

Enquanto membro de uma espécie, o comportamento de um organismo é determinado filogeneticamente e é produto da seleção natural. Enquanto indivíduo, o comportamento de um organismo é determinado ontogeneticamente e é produto do condicionamento operante.

Enquanto membro de uma cultura, o indivíduo se comporta da maneira que foi ensinado, isto é, de acordo com as contingências de reforçamento mantidas pelo grupo. "A seleção natural propicia-nos o organismo; o condicionamento operante, a pessoa; e (...) a evolução da cultura permite a existência do eu." (Skinner, 1991, p.44, grifos do autor).

A passagem do nível ontogenético para o nível cultural de seleção pela consequência, que resulta na emergência do eu, é garantida pelo comportamento verbal. O processo tem início a nível do indivíduo e, práticas originadas deste modo, que contribuem para o sucesso do grupo em resolver seus problemas, se tornam parte da cultura.

Embora se possa pensar, teoricamente, na seleção pela conseqüência a nível da prática de qualquer grupo, o certo é que ela é grandemente favorecida pelo comportamento verbal. O comportamento verbal permite a ocorrência de processos através dos quais os indivíduos aproveitam o comportamento já adquirido pelos outros. Cada indivíduo, então, pode apresentar comportamentos sem ter passado antes pela situação particular na qual o comportamento é requerido.

Para que isso se tornasse possível, foi necessário que o comportamento verbal, presente em várias espécies por determinação filogenética, fosse colocado sob controle de suas conseqüências a nível ontogenético. Isto é, foi necessário que o comportamento verbal pudesse ser adquirido ao longo da vida de cada indivíduo. O operante verbal que resulta da sensibilidade ontogenética do comportamento verbal a suas consequências é, como tal, exclusivo da espécie humana (Skinner, 1990).

Skinner destaca a importância deste ponto quando compara o comportamento de um rato que pressiona a barra com o de um ser humano que explora uma máquina de café ainda desconhecida. O rato pressiona a barra, recebe comida como conseqüência e, então, passa a pressionar mais rapidamente. Nós, também, apertamos o botão da cafeteira, enchemos a xícara de café e, então pressionamos o botão que a xícara de café for um reforçador. "Diferimos, porém, do rato porque somos capazes de contar o que aconteceu (‘Apertar o botão faz sair café’)." (Skinner, 1991, p.62).

Este é um primeiro sentido em que podemos entender a consciência: a capacidade de descrever o que se está fazendo. E é verbal. É verbal por definição, porque é conseqüenciado pela mudança no comportamento do ouvinte; é verbal na origem ontogenética, porque é estabelecido através da interação verbal do aprendiz-ouvinte com o falante-membro da comunidade lingüística; e é verbal a cada instância na forma (oral ou escrita, manifesta ou encoberta, não importa) e na função, já que é iniciada e mantida pelo comportamento verbal do ouvinte.

E o comportamento de descrever é mantido pelo ouvinte porque é útil para ele particularmente e para o grupo em geral. A importância da descrição fica clara - e sua relação com a noção de consciência mais estreita - quando consideramos a descrição de eventos internos. Quando a criança diz para a mãe "tenho fome", a mãe pode providenciar o que comer. Isso é obviamente útil para a criança, que é alimentada, mas é igualmente útil para a mãe, que lida melhor com a criança quando é informada sobre o que está dentro de sua pele. Por isso, a mãe - ou o membro mais próximo da comunidade - ensina a criança a descrever o que sente. E a criança se torna capaz de dizer quando tem fome.

Mas, a criança se torna capaz de dizer mais do que tenho fome: ela aprende a dizer "tenho medo", "estou feliz", "sou tímida"," amo você". Aprende porque é ensinada. E é ensinada por conta de contingências práticas como aquelas que levam a mãe a perguntar se a criança tem fome." Desta forma, contingências práticas levam os indivíduos a apresentarem, uns aos outros, perguntas que resultam na auto-observação que denominamos consciência."(Skinner, 1991, p.77).

É aqui que se completa a determinação das características comportamentais do indivíduo, porque é aqui que se fecha o conjunto de variáveis responsáveis por seu comportamento: organismo, produto da seleção natural; pessoa, produto do condicionamento operante; eu, produto da evolução de uma cultura. E o conjunto se fecha aqui porque é aprendendo a se descrever que a pessoa constrói o seu eu. "O eu é o que a pessoa sente a respeito de si própria." (Skinner, 1991, p.45).

Então, enquanto é verbal a sua auto-descrição, é verbal o seu eu, é verbal a sua consciência.

Mas, isso não encerra o ponto em torno da relação entre comportamento verbal e consciência. Para passar ao próximo ponto, deixe-me lembrar o episódio da pessoa que descobre como funciona a cafeteira nova. Ela explora a máquina, descobre o que fazer e formula uma regra: "Para fazer sair o café, deve-se pressionar o botão". Este episódio está ilustrando, então, como eu já disse, a função do comportamento verbal de descrever os estímulos presentes (botão, cafeteira, café) e, também, a função do comportamento verbal de dar instruções ("Pressionar o botão faz o café sair").

Aprender através de instruções remete ao controle do comportamento por regras. Uma das primeiras práticas verbais sensíveis à conseqüência ontogeneticamente pode ter sido a de dar ordens (Catania, 1986): o falante dizendo ao ouvinte o que fazer. Isso teria permitido a cooperação no caçar e no pescar, por exemplo, aumentando a chance de sobrevivência do grupo cujos membros demonstrassem esta sensibilidade. Com o advento da escrita, falante e ouvinte puderam se tornar separados temporalmente e espacialmente, permitindo a transmissão de instruções de geração para geração.

A função da regra em geral e das instruções em particular é a de criar estímulos discriminativos. Quando digo "apertar o botão faz o café sair", torno o botão um estímulo discriminativo para o comportamento de apertar que é reforçado pela saída do café. Graças a esta função, seguir regras permite a ocorrência de comportamento novo: posso andar em uma cidade que não conheço, porque um mapa me "mostra" o caminho. Se, ao chegar a algum lugar, alguém me perguntar o caminho, sou capaz de dizer: "basta tomar o ônibus XIZ na esquina das ruas M e N, descer no ponto final e caminhar duas quadras". Posso descrever o meu comportamento de tal forma que, quem me ouvir, poderá fazer o mesmo percurso que eu.

Por outro lado, pode ocorrer a curiosa situação de um morador da cidade, nascido e criado nela, não ser capaz de descrever seu próprio comportamento da forma como sou capaz. Ele vai onde quer, é certo (e, talvez, mais depressa do que eu); mas, perguntado sobre como o faz, não pode identificar seu caminho. Ao longo de sua história na cidade, alguns dos seus comportamentos (virar a esquerda em uma esquina, à direita em outra, seguir em frente no próximo cruzamento) foram reforçados, levando-o mais depressa a seu destino e permaneceram em seu repertório. Mas, ele não é capaz de descrevê-los. Perguntado, ele diz: "eu venho andando por ali e chego"; ou" não sei o que faço, mas dá certo".

Podemos dizer, em um primeiro nível de análise, que o comporta-mento de quem seguiu as regras é racional e que o comportamento que foi modelado pela suas conseqüências é intuitivo. O primeiro é consciente, no sentido de que quem se comporta" sabe o que está fazendo".

Ou seja, a pessoa é capaz de dar razões para seu comportamento que parecem mais convincentes, mais reais. Se perguntarmos a alguém que está num restaurante porque não sair sem pagar a conta, podemos ter como resposta um referência a este não ser o jeito certo de proceder. "Não é assim que se faz", "Isso seria roubo é errado". Este seria um comportamento que poderíamos chamar de racional, no sentido de que a decisão se remete a uma regra. O caso do habitante da cidade a que me referi antes pode fornecer um bom contraste aqui: sua habilidade de encontrar o caminho pela cidade mostra um comportamento para o qual nenhuma regra foi formulada. Neste sentido, seria intuitivo por oposição a racional e não seria um comportamento controlado por estímulos verbais.

Apontando e validando razões, as regras funcionam como auto-governo para os grupos. São descrições ou nomes de conseqüências - novamente o verbal - e não as próprias conseqüências. É nesse sentido que dizemos que uma das funções da psicoterapia é "trazer à consciência uma parcela maior daquilo que fazemos." (Skinner, 1991, p.46-7).

Destaquei, ao longo da minha análise, a relação entre o comportamento verbal e a consciência. Ambos - operante verbal e consciência - são considerados pelo Behaviorismo Radical como aspectos distinguidores do homem (Skinner, 1990). Ambos seriam produto da seleção pela conseqüência: o operante verbal, a nível do condicionamento operante; e a consciência, a nível da seleção de culturas.

Os dois se juntam ainda mais claramente quando consideramos que a própria palavra consciência - ciência com, conhecimento com - é uma alusão às contingências verbais necessárias para estar consciente (Skinner, 1990).

MACHADO, L.M.deC.M., Consciousness and Verbal Behavior. Psicologia USP, São Paulo, v.8, n.2, p.101-107, 1997.

Consciousness is here examined from point of view of Radical Behaviorism. Consciousness can be taken as the ability to describe verbally, in overt or implicit way, what one is doing. Consciousness also has to do with the control of behavior by rules. To follow a rule is to be conscious, in the sense of "knowing what one is doing". Radical Behaviorism considers verbal operants and consciousness as distinguishing features of human beings; both are a product of selection by consequences: verbal operants at the level of operant conditioning and consciouness at the level of the selection of cultures.
Index terms: Consciousness. Verbal behavior. Behaviorism

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CATANIA, A.C. Rule-governed behaviour and the origins of language. In: LOWE, C.F.; RICHELLE, M.; BLACKMAN, D.E.; BRADSHAW, C.M., eds. Behaviour analysis and contemporary psychology. London, Lawrence Erlbaum, 1986. p.135-56. [ Links ]

SKINNER, B.F. Can psychology be a science of mind? American Psychologist, v.45, n.11, p.1206-10, 1990. [ Links ]

SKINNER, B.F. Questões recentes na análise comportamental. Trad. Anita L. Neri. Campinas, Papirus, 1991. [ Links ]

SKINNER, B.F. Selection by consequences. The Behavioral and Brain Sciences, v.7, n.4, p.477-510, 1984. [ Links ]

SKINNER, B.F. Sobre o behaviorismo. Trad. Maria da Penha Villalobos. São Paulo, Cultrix / Ed. Universidade de São Paulo, 1982. [ Links ]

1 Texto apresentado no Simpósio "Consciência", sob coordenação do Prof. César Ades, na 45a Reunião Anual da SBPC - Recife - julho/1993.

fonte: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-65641997000200005