quarta-feira, 22 de junho de 2011

ABRINDO A CAIXA DE SKINNER (Aqui, as críticas também são bem-vindas)















A  C O R R I D A  D E  R AT O S  D E  S K I N N ER


LAUREN SLATER


B. F. Skinner, o principal neobehaviorista dos Estados Unidos, nasceu em 1904 e morreu em 1990. É conhecido no campo da psicologia por seus famosos experimentos com animais, nos quais demonstrou o poder das recompensas e reforços para moldar o comportamento. Usando comida, alavancas e outras sugestões ambientais, Skinner demonstrou que o que parecem ser respostas autônomas são, na verdade, respostas sugeridas e, ao fazê-lo, ele colocou em dúvida a noção há tanto tempo valorizada de livre-arbítrio. Skinner gastou boa parte de sua carreira científica estudando e refinando o que ele veio a chamar de condicionamento operante, os meios pelos quais os seres humanos podem treinar seres humanos e outros animais a realizar toda uma série de tarefas e aptidões por meio de reforço positivo.
Skinner defendeu que a mente, ou o que era então chamado mentalismo, era irrelevante, mesmo inexistente, e que a psicologia deve-ria se concentrar apenas nos comportamentos concretos mensuráveis. Sua visão era construir uma comunidade em todo o mundo na qual o governo consistiria em psicólogos behavioristas que condicionariam, ou treinariam, seus cidadãos para se transformarem em falanges de robôs benevolentes. De todos os psicólogos do século XX, é possível que seus experimentos e suas conclusões sobre a natureza mecanística dos homens e mulheres sejam os mais insultados e, ainda assim, continua-mente relevantes para a nossa era cada vez mais tecnológica.

Skinner, o "Mito" - (perseguido por Lauren)







Portanto, talvez seja esta a história. Existe um homem chamado Skinner [“peleteiro”, “esfolador”], um nome feio em qualquer relato, um nome com uma faca dentro dele, a imagem de um peixe esfolado caindo sobre um tabuleiro, seu coração mal visível em seu manto de músculos. Diga o nome “Skinner” a vinte pessoas com grau universitário e a maioria reagirá com um adjetivo semelhante a “mau”. Sei que isso acontece, pois fiz a experiência. E, mesmo assim, em 1971, a Time Magazine o considerou o psicólogo vivo mais influente. E uma pesquisa de opinião de 1975 o identificou como o cientista mais conhecido nos Estados Unidos. Ainda hoje, em todos os lugares, seus experimentos merecem a mais alta estima.
 Então, por que a infâmia? Eis por quê. Nos anos 1960, Skinner deu uma entrevista ao biógrafo Richard I. Evans, na qual admitiu abertamente que seus esforços em engenharia social tiveram implicações para o fascismo e poderiam ser usados para fins totalitários. Consta que B. F. Skinner desejava nada mais que moldar – e moldar é a palavra operante aqui – o comportamento das pessoas sujeitadas a engrenagens, caixas e botões, qualquer humanidade em que ele tocasse se ossificando. Diz a lenda que ele construiu uma caixa de bebê na qual manteve a filha Deborah por dois anos inteiros para treiná-la, registrando o progresso dela num gráfico. Diz também a lenda que, quando estava com 31 anos de idade, ela o processou por abuso em um autêntico tribunal de justiça, perdeu a ação judicial e atirou em si mesma numa pista de boliche em Billings, Montana. Nada disso é verdade e, ainda assim, os mitos persistem. Por quê? O que existe em Skinner que nos amedronta tanto?

Digite “B. F. Skinner” em sua ferramenta de busca na internet e você obterá milhares de ocorrências, entre elas o website de um pai ultrajado que amaldiçoa o homem por assassinar uma criança inocente; um website com uma caveira e um texto de Ayn Rand “Skinner é tão obcecado com o ódio e a virtude do homem, com um ódio tão intenso e absorvente, que consome a si mesmo e, no fim, o que temos são apenas cinzas e carvão malcheiroso”; um memorial a Deborah, que teria supostamente morrido nos anos 1980: “Deborah, nossos corações se abrem para você.” E, então, um pequeno link em vermelho com os dizeres: “For Deborah Skinner herself, click here” [“Para acessar a página da própria Deborah Skinner, clique aqui”]. Cliquei. Rolando a página para baixo, aparece a foto de uma mulher de meia-idade, de cabelos castanhos. A legenda dizia que aqui estava a própria Deborah Skinner, que seu suicídio era um mito e que ela estava viva e bem.

Lendas. Mitos. Histórias. Histórias exageradas. Qual o verdadeiro legado de Skinner? O desafio de entender o experimento de Skinner será, talvez, principalmente discriminativo, separando conteúdo de controvérsia, uma peneiração total. Escreve o psicólogo e historiador John A. Mills: “[Skinner] foi um mistério envolto em uma charada envolta em um enigma.” Decido ir a fundo, lentamente.
 Ele nasceu em 1904. É a única certeza. Além disso, porém, o que encontro é um emaranhado de contradições. Foi um dos principais behavioristas dos Estados Unidos, um homem verdadeiramente austero, que dormia em um cubículo amarelo brilhante do Japão chamado beddoe, mas que, ao mesmo tempo, não conseguia trabalhar a menos que sua mesa estivesse abarrotada, e que disse sobre o seu próprio percurso: “É incrível o número de acidentes triviais que foram importantes... Não acredito que minha vida tenha sido planejada em qualquer ponto.” Mas, então, ele escreveu muitas vezes que se sentia um deus e “uma espécie de salvador da humanidade”.
 Quando era docente em Harvard, Skinner conheceu e se apaixonou por uma mulher chamada Yvonne, que mais tarde se tornaria sua mulher. Vejo-os nas noites de sexta-feira, dirigindo até o lago das Gaivotas, em Monhegan, com a capota preta do conversível dobrada para trás e alguma espécie de jazz melancólico tocando no rádio. Uma vez no lago, eles se despem e mergulham nus, as águas salobras em seus corpos, o ar frio da noite, a lua apenas um buraco recortado no céu. Leio num texto empoeirado no porão de uma biblioteca que, depois das sessões de treinamento, ele costumava levar para fora os seus pombos engaiolados e segurá-los em sua mão imensa, afagando suas cabeças felpudas com o polegar.

Fiquei surpresa quando soube que, antes de ir a Harvard estudar psicologia em 1928, a aspiração de Skinner era ser um romancista, e que tinha passado os dezoito meses anteriores enfurnado no sótão da casa de sua mãe escrevendo prosa lírica. Não ficou claro para mim como ele foi da prosa lírica para os índices cronometrados de reforço – como um homem pode dar uma guinada tão brusca. Ele escreve que, quando tinha cerca de 23 anos de idade, deparou-se com um artigo de H. G. Wells, na New York Times Magazine, no qual Wells afirmava que, se lhe fosse dada a chance entre salvar a vida de Ivan Pavlov ou de George Bernard Shaw, Wells escolheria Pavlov, porque a ciência é mais redentora que a arte.

E, de fato, o mundo precisava de redenção. A Grande Guerra tinha acabado uma década antes. Soldados atingidos por bombas sofriam de flashbacks e depressões; os asilos estavam lotados; havia uma necessidade urgente de algum tipo de esquema terapêutico. Quando Skinner foi a Harvard, em 1928, como estudante de graduação, o esquema era basicamente psicanalítico. Todo mundo em todos os lugares estava deitado em divãs de couro e pescando iguarias efêmeras de seus passados. Freud dominava juntamente com o venerável William James, que escrevera As variedades da experiência religiosa, um texto sobre os estados introspectivos da alma, sem nenhuma equação nele. Esse, de fato, era o estado da psicologia quando Skinner chegou; era um campo sem números, que tinha mais em comum com a filosofia que com a fisiologia. Uma pergunta introdutória típica no campo poderia ser: “O que está dentro de nós que vê, sente e pensa a todo momento quando estamos despertos, desaparece temporariamente quando dormimos e desaparece permanente ou instantaneamente quando morremos?”

Introspecção. Mentalismo. Eram esses os princípios nos quais Skinner interveio, aquele jovem magro com um rígido elmo de cabelos puxados para cima em um penteado à Pompadour. Os olhos eram de um azul intenso, como lascas de porcelana. Ele escreveu que queria influir, sentir coisas palpáveis nas mãos e no coração. Situado entre a Primeira Guerra Mundial e uma futura logo por vir, Skinner pode ter intuído – embora rejeitasse uma palavra tão frágil – a necessidade de ação, de intervenções e resultados que pudessem, cada um, ser endurecidos, como balas.

Ele evitava, portanto, qualquer coisa “mole”. Começou no curso de fisiologia de Hudson Hoagland, estudando reflexos de rã. Dava uma picada na pele retesada da coxa de uma rã e media o movimento espasmódico do animal e, depois, seu salto. As mãos cheiravam a pântano e ele estava cheio de energia.

Certo dia, no início da sua carreira em Harvard, Skinner se deparou com a Oficina de Psicologia de Harvard, em Emerson Hall. Viu uma série de instrumentos, peças em estanho-vermelho, cinzéis, pregos e porcas em latas de cigarros Salisbury. Imagino que sentiu uma comichão nas mãos. Queria fazer algo grande e sempre fora habilidoso, empunhando tesouras e serras com precisão. Então lá, naquela oficina minúscula, Skinner começou a construir suas famosas caixas, usando fios refugados, pregos enferrujados e brocas escurecidas que encontrava.

Será que ele sabia o que estava construindo e os efeitos imensos que isso teria sobre a psicologia norte-americana? Estaria ele perseguindo uma visão pré-montada ou simplesmente seguindo o lírico vai-e-vem de um poema de estanho e fio, de forma que, no fim, o que viu surpreendeu até mesmo a ele: uma caixa operada por ar comprimido, um mecanismo silencioso de liberação, todas as engenhocas e engrenagens, a caixa, um reles objeto que, como as escadas, os espelhos e os gatos pretos, imediatamente adquiriram uma espécie de brilho denso.

Sobre essa época, Skinner escreve: “Começo a ficar insuportavelmente animado. Tudo em que toquei sugeriu coisas novas e promissoras a fazer.”

Agora, tarde da noite em seus aposentos alugados, Skinner lia Pavlov, com quem tem uma enorme dívida, e Watson, a quem deve menos, mas ainda uma dívida considerável. Pavlov, o grande cientista russo, tinha praticamente vivido no seu laboratório, tal era sua dedicação. Passara anos estudando as glândulas salivares de seus adorados cães. Pavlov descobriu que a glândula salivar poderia ser condicionada a vazar ao som de uma campainha. Skinner gostou dessa idéia, mas queria ir além de uma pequena membrana mucosa, queria o organismo inteiro; onde estava a poesia na saliva?

Pavlov descobriu o que é conhecido como condicionamento clássico. Isto simplesmente significa que uma pessoa pode pegar um reflexo animal preexistente, como piscar, assustar-se ou salivar, e condicioná-lo de tal maneira que ele ocorra em resposta a um novo estímulo. Daí a famosa campainha – um estímulo –, que os cães de Pavlov aprenderam a associar ao alimento, salivando ao seu som. Bem, isso pode não parecer uma grande descoberta para mim ou para você, mas naquela época foi algo gigantesco. Foi tão arrebatadora quanto a fissão do átomo ou a posição singular do sol. Nunca, em tempo algum de toda a história humana, as pessoas tinham entendido o quanto eram fisiológicas as nossas supostas associações mentais. Nunca antes as pessoas tinham entendido a pura e simples maleabilidade da imutável forma animal. Os cães de Pavlov salivaram, e o mundo perdeu duas vezes o equilíbrio.

Skinner ficou maravilhado. Ele estava lá, em seus aposentos, e tinha construído algumas de suas caixas ainda não-famosas, ou infames, ainda vazias – e sempre havia esquilos logo embaixo, nos jardins de Harvard. Ele observava os esquilos e se perguntava se seria possível, digamos, condicionar a coisa toda, e não simplesmente uma simples e tola glândula. Em outras palavras, poderia uma pessoa moldar um comportamento – aquilo que Skinner veio a chamar um operante – que não fosse um reflexo? Condicionada ou não, a salivação é, foi e sempre será um reflexo, uma ação inteiramente formada que ocorre por conta própria, além de ser provocada por uma campainha. Entretanto, quando você pula no ar ou canta “Howdy Doodie” ou aperta uma alavanca na esperança de encontrar comida, você não está agindo reflexamente. Está simplesmente se comportando. Está operando em seu ambiente. Se é possível condicionar um reflexo, não seria demais tentar dar mais um passo à frente e condicionar movimentos acrobáticos ou outros move-mentos supostamente de forma livre? Seria possível pegar um movimento inteiramente aleatório, como virar a cabeça para a direita e compensá-lo sistematicamente, para que, sem demora, a pessoa fique olhando para a direita, o operante inscrito? E se isso fosse possível, até onde seria possível ir? Que tipos de arco poderíamos aprender para saltar tudo e com que tipo de desenvoltura? Skinner se perguntou. Ele moveu, imagino, suas mãos para cá e para lá. Debruçou-se no peitoril da janela e sentiu o cheiro de esquilos, um odor almiscarado de noite e excremento, de pêlos e flores.

Em junho daquele ano, Skinner ganhou ratos de um estudante de graduação que partia. Ele colocou os animais em uma caixa. Então, começou. Depois de muito, muito tempo, de fato, anos, descobriu que esses ratos, que têm cérebros não maiores que um feijão cozido, conseguiam rapidamente aprender como apertar uma alavanca, se recebessem comida como recompensa. Portanto, enquanto Pavlov se concentrou no comportamento do animal em resposta a um estímulo anterior – a campainha –, Skinner se concentrou no comportamento do animal em resposta a uma conseqüência após o fato – o alimento. Foi uma nuança sutil e não tão excitante em relação ao trabalho anterior de Pavlov e uma extensão ostensiva dos estudos de Thorndike, que já tinha demonstrado que gatos em caixas de ripa recompensados por pisar acidentalmente em um pedal poderiam aprender a fazê-lo intencionalmente. Mas Skinner foi mais adiante que esses dois homens. Depois de ter demonstrado que seus roedores poderiam, por acidente, pisar na alavanca e soltar uma bolota e depois transformar o acidente em intenção com base em recompensa anterior, ele brincou de remover ou alterar a proporção em que as recompensas ocorriam e, ao fazê-lo, Skinner descobriu leis replicáveis e universais de comportamento que ainda hoje são verdadeiras.

Por exemplo, depois de Skinner ter sistematicamente recompensado com comida o rato que pressionava a alavanca, ele tentou o que chamou de um esquema de razão fixa. Nesse cenário, se o animal pressionasse a alavanca três vezes, receberia sua guloseima. Ou cinco vezes. Ou vinte vezes. Imagine-se como um rato. Primeiro, sempre que você aperta a alavanca, ganha comida. Depois, você aperta a alavanca uma vez e não ganha comida; você o faz de novo, ainda nenhuma comida. Você o faz de novo e pela torneira prateada chega uma bolota. Você come a bolota e se afasta. Você volta para pegar mais. Desta vez, você nem pensa em apertar uma vez com o seu pé róseo. Você aperta três vezes. As contingências de re-forço mudam a maneira como o animal responde.

Skinner também se entreteve com aquilo que denominou esquemas de intervalo fixo e extinção. Na versão de extinção do experimento, Skinner removeu inteiramente o reforçador. Ele descobriu que se parasse de recompensar os ratos com comida, eles acabariam parando de apertar a alavanca mesmo quando ouviam o som das bolotas descendo. Utilizando um registrador cumulativo fixado à sua caixa, Skinner pôde representar pictoricamente exatamente quanto tempo se leva para aprender uma resposta quando ela é regularmente recompensada e quanto tempo se leva para extinguir uma resposta quando ela é abruptamente suspensa. Sua capacidade de quantificar com precisão essas taxas sob diferentes circunstâncias forneceu dados quantificáveis sobre como os organismos aprendem e sobre como podemos predizer e controlar o resultado do aprendizado. Com a façanha da previsibilidade e do controle, uma verdadeira ciência do comportamento nasceu, com curvas em sino, diagramas de barras, gráficos de pontos e matemática – e Skinner foi o primeiro a fazê-lo com tal nuança e de múltiplas camadas.

Mas Skinner não parou aí. Partiu para aquilo que chamou de esquemas variáveis de reforço, e foi aqui que fez suas descobertas mais significativas. Tentou recompensar intermitentemente os animais com comida quando eles apertavam a alavanca, de modo que, na maioria das vezes, os animais nada recebessem, mas, de vez em quando, digamos, depois da quadragésima ou sexagésima vez em que apertassem a barra, recebessem um mimo. A intuição nos diz que recompensas aleatórias e remotas levariam à desesperança e extinção do comportamento; não levaram. Skinner descobriu que, se recompensasse intermitentemente os ratos com comida, eles continuariam a pressionar aquela alavanca como uma espécie de drogado insistente, independentemente do resultado. Ele experimentou buscando saber o que acontece quando recompensas intermitentes são dadas em intervalos regulares (digamos, uma a cada quatro vezes) ou em intervalos irregulares. Descobriu que um comportamento irregularmente recompensado era o mais difícil de ser erradicado. Ahá! Essa descoberta era tão grande quanto a da salivação canina. De repente, Skinner era capaz de evocar sistematicamente e explicar boa parte da insensatez humana, por que fazemos coisas estúpidas quando não somos sistematicamente recompensados, por que sua melhor amiga fica grudada no telefone, a saliva brilhando nos cantos da boca, esperando que aquele namorado genioso com um vestígio ocasional de gentileza telefone, apenas telefone. Oh, por favor, telefone! Por que pessoas perfeitamente normais esvaziam seus cofres em cassinos esfumaçados e se metem em terríveis apuros. Por que as mulheres amam demais, e os homens negociam margens. Tinha tudo a ver com essa coisa chamada re-forço intermitente e ele poderia demonstrá-lo, seus mecanismos, as contingências da compulsão. E compulsão é algo enorme. Ela – sem trocadilhos intencionais – nos faz cachorradas e nos afoga desde que a primeira pessoa entrou no Éden. É enorme.

Mas Skinner não parou ali. Se ele pôde treinar ratos a apertar alavancas, por que não treinar pombos para, digamos, jogar pingue-pongue? Jogar boliche? Quais eram os limites, ele se perguntava, de quanto o homem poderia moldar o comportamento de um outro ser vivo? Skinner escreve sobre tentar treinar um pássaro a bicar um prato: “Primeiro damos comida ao pássaro quando ele vira a cabeça ligeiramente na direção [do prato], estando em qualquer parte da gaiola. Isto aumenta a freqüência do comportamento... A seguir, reforçamos sucessivamente as posições mais próximas ao alvo, depois reforçamos apenas quando a cabeça se move ligeiramente para a frente e, finalmente, somente quando o bico faz contato com o alvo. Dessa maneira, podemos construir operantes raros e complicados que, do contrário, nunca apareceriam no repertório do organismo.”

Raros, de fato. Usando seus métodos comportamentais, os seguidores de Skinner conseguiram ensinar um coelho a apanhar uma moeda com a boca e jogá-la num cofrinho em forma de porco. Também ensinaram um porco a limpar com aspirador de pó.

Com base nesses experimentos, ele apurou sua filosofia implacavelmente redutiva. Começou, cercado por seus pombos bicadores, a abominar palavras como intuído, sentir ou medo. Não existe medo, somente certas respostas galvânicas da pele e tremores musculares involuntários que emitem 2,2 volts de energia.

Por que simplesmente não rejeitamos Skinner, considerando-o um radical tendencioso? Não apenas porque ele descobriu a primeira ciência do comportamento. Sua visão também era audaciosa, talvez patrioticamente otimista. Negava aos norte-americanos a cobiçada autonomia, enquanto a devolvia inteiramente nova e melhorada. O mundo de Skinner era de extrema liberdade trabalhada por meio do seu oposto: a conformidade. No esquema skinneriano, se apenas nos submetêssemos ao treinamento impensado, tornar-nos-íamos biologicamente ilimitados, capazes de aprender habilidades bem fora do “repertório” de nossa espécie. Se pombos podem jogar pingue-pongue, então talvez os seres humanos pudessem aprender façanhas ainda mais incríveis. Tudo o que é necessário é o treinamento certo – e transporemos as fronteiras dos nossos corpos e suas limitações.

A fama de Skinner cresceu lentamente. Ele seguiu em frente e inventou máquinas de aprendizado, construiu uma teoria da aquisição da linguagem como condicionamento operante, treinou pombos como orientadores de mísseis na Segunda Guerra Mundial. Escreveu um livro chamado Walden 2, no qual descreveu em linhas gerais uma proposta para uma comunidade baseada em “engenharia comportamental”, na qual o poder do reforço positivo era usado para o controle científico de seres humanos. Na visão de Skinner, essa comunidade ideal seria governada não pelos políticos, mas por behavioristas armados com pirulitos e fitas azuis. Ele escreveu um livro chamado Beyond Freedom and Dignity [Para além da liberdade e dignidade], sobre o qual um resenhista escreveu: “É sobre a domesticação da humanidade através de escolas de obediência canina para todos.”

Antes que Skinner conseguisse trazer à fruição as implicações sociais de seus grandes experimentos, ele morreu de leucemia em 1990. Teria percebido, bem no fim, que o ato final da vida, que é a morte, não pode ser aprendido ou de alguma forma superado?
 Como podemos situar Skinner? Seus experimentos são perturbadores em suas implicações. Por outro lado, suas descobertas são certamente significativas. Em essência, elas iluminam a estupidez humana, e qualquer coisa que ilumine a estupidez é brilhante.

Jerome Kagan é um contemporâneo de Skinner que carrega muitas memórias e opiniões de seu colega. Professor de psicologia em Harvard, Kagan tem uma percepção profunda sobre que sentido dar a este homem e seu lugar no século XX. Vou vê-lo.

O prédio de escritórios de Kagan, o William James Hall, está em construção quando chego e, portanto, preciso me desviar para cá e para lá para abrir caminho por um labirinto de concreto, com cartazes acima de mim dizendo, “Cuidado. Use capacete protetor nesta área”. Subo pelo elevador. Todo o prédio encontra-se em um silêncio reverente. Muito abaixo de mim, nas entranhas do porão em que são guardados os artefatos, onde supostamente algumas das caixas pretas de Skinner estão encaixotadas, marteletes pneumáticos desgastam concreto velho e ouço uma voz fina gritando, Presto.

Desço ao 15o andar. As portas do elevador se abrem e à minha frente, como se num sonho, está sentado um cãozinho preto, tipo toy, sua boca uma fenda vermelha em sua face inteiramente negra. O cachorro me encara fixamente, uma espécie de sentinela – sei lá.
Adoro cães, embora os toys não sejam os meus preferidos. Eu me pergunto por que não o são. Quando criança, tive um cachorro toy e ele me mordeu; portanto, talvez eu tenha sido condicionada contra eles e pudesse ser recondicionada com recompensas para que passasse a preferir o shitzu ao pastor. De qualquer forma, curvo-me para afagar o cãozinho e, como se ele percebesse minha antipatia, entra num frenesi, revelando uma fileira de dentes impressionantes e de forma alguma pequenos e rosnando ao saltar para agarrar meu pulso exposto.

– Gambito! – grita uma mulher, saindo correndo de um dos escritórios. – Gambito, pare com isso! Oh, meu deus, ele a machucou?

– Estou bem – digo, embora não esteja bem. Estou tremendo. Recebi um reforço negativo... não, recebi uma punição. Nunca mais confiarei num toy e NÃO quero que isso mude. Skinner diria que ele conseguiria mudar isso, mas até que ponto sou modificável, somos modificáveis?
 O professor Kagan fuma um cachimbo. O escritório cheira a cachimbo, aquele odor rançoso meio adocicado de brasa queimada. Ele fala com o tipo de autoconfiança total que associo à casta da Ivy League:

– Permita-me dizer que seu primeiro capítulo não deveria ser sobre Skinner. Foi Pavlov no início do século XX e depois Thorndike, uma década depois, que fizeram os primeiros experimentos demonstrando o poder do condicionamento. Skinner am-pliou esse trabalho. Mas suas descobertas não conseguem explicar pensamento, linguagem, raciocínio, metáfora ou idéias originais, nem outros fenômenos cognitivos. Nem explicam culpa ou vergonha.

– E quanto às extrapolações de Skinner a partir de seus experimentos? – eu digo. – Que não temos livre-arbítrio. Que somos dominados apenas pelos reforços. Você acredita nisso?

Você acredita nisso? – pergunta Kagan.

– Bem, não descarto de forma alguma a possibilidade de que somos controlados ou estamos no controle, que nosso livre-arbítrio é, na verdade, apenas uma resposta a algumas sugestões que...

Antes que eu consiga terminar a sentença, Kagan mergulha em sua mesa. Digo isso literalmente. Ele pula da cadeira e avança à frente, se alojando sob a mesa, de modo que não o vejo mais.

– Estou debaixo da minha mesa – ele grita. – NUNCA fui para baixo de minha mesa antes. Isto não é um ato de livre-arbítrio?

Pisco. Onde Kagan estava sentado está vazio. Debaixo da mesa, ouço um barulho. Fico um pouco preocupada com ele. Acho que ele me disse, pelo telefone, quando pedi a entrevista, que tinha problemas nas costas.

– Bem – eu digo, e subitamente minhas mãos ficam frias de medo –, imagino que poderia ser um ato de livre-arbítrio ou pode-ria ser que você...

De novo, Kagan não me deixa terminar. Ele ainda está sob a mesa, não sobe, está conduzindo a entrevista agachado e escondido. Nem sequer o vejo. A voz aumenta, incorpórea.

– Lauren, não existe nenhuma maneira pela qual você possa explicar o fato de eu estar debaixo desta mesa neste exato momento, senão como um ato de livre-arbítrio. Não é uma resposta a um reforço nem a uma sugestão. NUNCA fiquei embaixo da minha mesa antes.

– Certo! – respondo.

Ficamos desse modo por um minuto, ele lá embaixo, eu aqui em cima. Acho que ouço aquele maldito cachorro no corredor, arranhando. Tenho medo de voltar para fora, mas não quero mais ficar aqui dentro. Estou enjaulada pelas contingências e, portanto, fico bem imóvel.
 Kagan, me parece, é um tanto desdenhoso com as contribuições de Skinner. Mas certamente há maneiras pelas quais os experimentos de Skinner – mesmo que sejam derivados – são ao mesmo tempo relevantes e úteis na construção de um mundo melhor. Nos anos 1950 e 1960, os métodos comportamentais de Skinner foram levados aos asilos governamentais e aplicados aos gravemente psicóticos. Usando seus princípios de condicionamento operante, pacientes irremediavelmente esquizofrênicos foram capazes de aprender a se vestir, a se alimentar – cada erguer da colher recompensado com um cobiçado cigarro. Mais tarde no século, os clínicos começaram a usar técnicas como dessensibilização sistemática e inundação, ex-traídas diretamente do repertório operante de Skinner, para tratar fobias e transtornos do pânico, e esses tratamentos comportamentais ainda são hoje amplamente empregados e obviamente eficazes. Diz Stephen Kosslyn, professor de psicologia em Harvard: “Prevejo um ressurgimento de Skinner. Eu próprio sou um verdadeiro fã de Skinner. Os cientistas estão agora mesmo fazendo novas descobertas excitantes que apontam para os substratos neurais dos achados de Skinner.” Kosslyn explica a evidência de que existem dois principais sistemas de aprendizado no cérebro: os gânglios basais, uma coleção de sinapses aracneiformes localizadas profundamente na massa do cérebro antigo, em que os hábitos são entalhados, e o córtex frontal, aquela grande protuberância dobrada que surge conjuntamente com nossa razão e ambição. O córtex frontal, conjecturam os neurocientistas, é onde aprendemos como pensar independentemente, visualizar o futuro e planejar com base no passado. É de onde a criatividade e todas as suas surpreendentes guinadas se originam, mas, diz Kosslyn: “Somente uma parte de nossas cognições é mediada por esse córtex.” O restante do aprendizado, diz Kosslyn, “uma quantidade significativa, é impelido pelo hábito, e os experimentos de Skinner nos levaram a procurar pelos substratos neurais desses hábitos.” Em essência, Kosslyn está dizendo, Skinner levou os cientistas aos gânglios basais, levou-os para baixo, descendo até a base do cérebro, na qual esquadrinharam por meio dos emaranhados neurais para encontrar a química por trás das bicadas, de apertar botões e de todos os movimentos acrobáticos condicionados que fazemos na grama verde, no verão.
Diz Bryan Porter, um psicólogo experiente que aplica behaviorismo baseado em Skinner para abordar problemas de segurança de trânsito: “Obviamente, o behaviorismo não é mau nem está morto. O behaviorismo de Skinner é responsável por muitas intervenções sociais benéficas. Com uso de técnicas behavioristas, pudemos reduzir a direção perigosa, no que diz respeito ao número de avanços de sinal vermelho, em 10% a 12%. E também por causa de Skinner, sabemos que as pessoas respondem melhor às recompensas que à punição. As técnicas de Skinner têm sido instrumentais em ajudar a enorme população de pessoas com transtorno da ansiedade a superar, ou extinguir, suas fobias. Graças a Skinner, autistas hesitantes agora sabem vestir camisas limpas e se alimentar. Graças a Skinner, você sabe como dar reforço positivo ao seu filho. Você sabe que recompensas funcionam muito melhor que punição para estabelecer o comportamento, porque Skinner deu ênfase ao poder do re-forço positivo. Isso tem enormes implicações políticas, se nosso governo pudesse simplesmente absorvê-lo.” Porter prossegue: “De fato, de uma maneira estranhamente tortuosa, temos de agradecer a Skinner pela crença muito popular de que é melhor ser afável com as pessoas, dar-lhes A quando talvez mereçam B, continuar dizendo: ‘Que ótimo trabalho você está fazendo!’, mesmo que não estejam.” E arremata, rindo: “Embora possivelmente ele não gostasse disso, é praticamente new age.

Minha filha chora na noite. Acorda empapada em suor, os globos oculares saltando, os sonhos se dissolvendo à medida que ela vem à consciência. “Pssss. Pssss.” Seguro seu corpo contra o meu. Suas roupas de cama estão ensopadas, seu cabelo, um tapete escuro de caracóis apertados. Afago sua cabeça, onde as fontanelas já muito se fecharam. Acaricio o declive da fronte, onde o córtex frontal diariamente faz germinar as exuberantes raízes e, então, desço minha mão pelo pescoço retesado, onde imagino sentir os gânglios basais, com seus emaranhados semelhantes a algas marinhas. Seguro minha filha na noite e, do lado de fora da janela do quarto, um cão uiva; quando olho, o animal é branco-sabão ao luar.

No início, minha filha chora porque está com medo, uma série de maus sonhos, imagino. Ela tem 2 anos de idade e seu mundo está se expandindo a uma velocidade aterrorizante. Mas à medida que passam as noites, ela simplesmente chora porque anseia pelo colo. Ela se habituou a esses abraços antes do amanhecer, ao ritmo da cadeira de balanço enquanto o céu lá fora está generosamente salpicado de estrelas. Meu marido e eu estamos exaustos.

– Talvez devêssemos skinnerizá-la – digo. – Devêssemos o quê? – pergunta ele.

– Talvez devêssemos empregar os princípios skinnerianos para quebrar o hábito dela. Toda vez que vamos até ela e a apanhamos, estamos lhe dando o que Skinner chamaria de reforço positivo. Temos de extinguir o comportamento, reduzindo e depois eliminando nossas respostas.

Meu marido e eu estamos tendo esta conversa na cama. Fico surpresa com a ligeireza com que minha língua assume e lança a linguagem de B. F. Praticamente soa como um especialista. Falar skinneriano é quase divertido. O caos é confinado. A paz retorna.

– Então você está sugerindo – diz ele – que simplesmente a deixe-mos chorar até cansar. – Sua voz parece abatida. Todos os pais conhecem essa discussão.

– Não, não. Ouça. Não digo chorar até cansar. Colocá-la num ritmo rigoroso de reforço reduzido. Na primeira vez que ela chorar, pegamos no colo por apenas três minutos. Da vez seguinte que ela chorar, pegamos no colo por dois minutos. Poderíamos até usar um cronômetro. – Minha voz fica cada vez mais excitada, ou será ansiosa? – Depois, aumentamos o tempo que a deixamos chorar. Bem gradualmente e, devagarzinho, extinguimos o comportamento ou extinguimos nossas respostas... as contingências desenhando com a mão o padrão do lençol, uma série de grades verdes, aquilo que outrora parecia um xadrez caipira, mas agora parece um papel de laboratório.
Meu marido me olha fixamente, cautelosamente, eu poderia acrescentar. Ele não é psicólogo, mas se fosse, seria da escola Carl Roger. Ele tem uma voz macia, um toque ainda mais macio:

– Não sei – diz ele. – O que exatamente você acha que ensinare-mos a ela fazendo isso?

– A dormir em paz durante toda a noite – respondo.

– Ou – ele rebate – a perceber que, quando ela precisar de ajuda, não responderemos, que quando estiver em perigo real ou imaginário, não estaremos lá. Não é essa a visão de mundo que quero transmitir.

Mesmo assim, ganho a discussão. Decidimos skinnerizar nossa menina, no mínimo porque precisamos de descanso. No começo, é brutal ter de a ouvir gritar: “Mamãe, mamãe, papai!”, ter de a ignorar quando estica seus lindos braços no escuro, mas nós o faze-mos e é isso o que acontece: funciona como mágica, ou ciência. Em cinco dias, a criança age como um narcoléptico treinado; assim que ela sente o lençol da sua caminha na bochecha, cai num período de sono de dez horas e todas as nossas noites são tranqüilas.

É o que acontece. E todas as nossas noites são tranqüilas. Mas agora, às vezes, não conseguimos dormir, meu marido e eu. Teríamos lembrado de ligar o monitor? O volume está alto o bastante? A chupeta quebrou na boca e, portanto, ela vai sufocar quando chupar? Ficamos acordados e através do monitor podemos às vezes ouvir o som da sua respiração, como um vento estático, mas nem uma só vez surge sua voz – nenhum choramingo, um riso, um doce falar dormindo. Ela foi sinistramente amordaçada.

Ela dorme bem tranqüila, na sua caixa branca de bebê.



Algumas das caixas reais que Skinner usou foram guardadas em Harvard. Vou vê-las. Estão no porão do William James Hall, ainda em construção. Preciso usar um capacete rígido, um casco amarelo pesado na minha cabeça. Desço pelas escadas. Há um mau cheiro úmido no ar, e moscas negras zumbem como neurônios, cada qual
uma massa com finalidade. As próprias paredes são porosas e, quando você as aperta, um pó branco fino gruda nas suas mãos. Passo por um operário em botas de cano alto até o quadril, fumando um cigarro, a ponta brilhante chiando como uma ferida no canto do lábio. Imagino que este porão esteja cheio de ratos; eles se escoram ao redor das caixas, seus olhos róseos vítreos, seus desprezíveis rabos movendo-se rapidamente: que liberdade!

Lá em cima, vejo uma enorme mancha escura – ou será uma sombra? – na parede de tijolos.

– Estão lá – diz meu guia, um técnico de construções, e aponta. Vou em frente. À minha frente na penumbra do porão, consigo distinguir grandes expositores de vidro e, dentro deles, uma espécie de esqueleto. Mais perto, vejo que são os restos de um pássaro, seus ossos ocos próprios para o vôo dispostos de maneira a lhe dar a aparência de um sobrevôo, seu crânio cheio de pequenos buracos puntiformes. Talvez um dos pombos de Skinner, as órbitas oculares profundas, dentro delas um diminuto lampejo vivo, e então some. Movo meu olhar atento dos ossos para as caixas. É neste momento que fico surpresa com o que vejo. Os ossos estão de acordo com o agourento mistério desse homem, mas as caixas, as famosas caixas – são estas as famosas caixas pretas? Para começo de conversa, não  são  pretas.  São  de  um  cinza  inócuo. Teria  eu  lido  que  as caixas eram pretas ou teria eu simplesmente inventado isso, na interseção em que fato e mito se encontram para criar todos os tipos de objetos bizarros? Não, as caixas não são pretas, tendo, pelo contrario, uma aparência raquítica, com um aparelho externo de criar gráficos e pequenas alavancas para treinamento. Os pedais de apertar são bem pequenos, quase graciosos, mas os pratos de alimentação são de um frio cromo institucional. É isto que faço: coloco minha cabeça dentro. Ergo a tampa e coloco minha cabeça bem no fundo  de  uma  caixa  de  Skinner,  onde  o  cheiro  é  de  excremento, medo, comida, plumas, coisas macias e duras, bom e ruim; com que rapidez um objeto muda de benigno para agourento. Como é difícil encaixotar mesmo uma caixa.
Talvez, penso, o meio mais preciso de entender Skinner, o homem, seja apreendê-lo como dois, não como um. Há o Skinner ideólogo, o homem macabro que sonhou em criar comunidades de pessoas treinadas como animais de estimação, e, então, há o Skinner cientista, que fez descobertas distintas que mudaram para sempre a maneira como vemos o comportamento. Há os dados de Skinner, irrefutáveis e brilhantes, o poder do reforço intermitente, a gama pura e simples de comportamentos que podem ser moldados, intensificados ou extintos, e, então, há a filosofia de Skinner, em que, imagino, ele ganhou sua sombria reputação. Essas duas coisas talvez tenham se misturado na mente do público, na minha certa-mente, à medida que a ciência e as idéias por elas geradas se fundiram em uma confusão mítica. Mas então, novamente, você pode realmente separar o significado dos dados de seus usos sociais propostos? Podemos considerar simplesmente dividir o átomo e não a bomba e os ossos que seguiram? Não estaria a ciência indelevelmente enraizada no solo da construção social, de forma que o valor daquilo que descobrimos esteja inextricavelmente atado ao valor dos usos que descobrimos para a descoberta? Ficamos dando voltas e mais voltas. É um enigma léxico, sintático, para não dizer moral ou intelectual, de grave transcendência – a idéia de que a ciência e seus dados são melhor avaliados em uma caixa, independentemente das mãos humanas que inevitavelmente lhe darão seu formato.

À parte as questões de aplicação como meio de avaliar dados, quais são todos os mecanismos, por assim dizer, que contribuíram para a infâmia de Skinner? Como e por que o bizarro mito da filha morta (que está supostamente bem viva), das caixas pretas e do cientista robótico que precede tudo aquilo que vejo poderia, talvez, nos fornecer uma visão mais matizada de um homem que pairou entre a prosa lírica e complexos cálculos numéricos, um homem que mergulhou nu logo depois de pôr seus ratos e pássaros para trabalhar, um homem que cantarolava Wagner, aquele compositor de sentimento puro, enquanto estudava o simples reflexo de uma rã verde? Como toda essa complexidade se perdeu? Com certeza, o
próprio Skinner deve ser parcialmente responsabilizado. “Ele era ganancioso”, diz uma fonte que deseja permanecer anônima. “Fez uma única descoberta e tentou aplicá-la no mundo inteiro e, portanto, escorregou.”

Mesmo assim, há muito mais que ganância que nos repugna. Skinner, ao desenvolver novos aparelhos, levantou questões que eram uma afronta à imaginação ocidental, que se orgulha da liberdade enquanto, ao mesmo tempo, abriga grandes dúvidas sobre o quanto nossas supostas liberdades são realmente sólidas. Nossos medos do reducionismo, nossas suspeitas de que realmente podemos ser não mais que uma série de respostas automáticas, como muitos de nós gostam de achar, ganham relevo na era industrial. São muitíssimo mais antigos que isso. Desde que Édipo se enfureceu com seu destino cuidadosamente calibrado, ou Gilgamesh lutou para se libertar dos planos predestinados de seu Deus, os seres humanos têm se perguntado e se preocupado com até que ponto orquestramos nossas próprias ações. O trabalho de Skinner foi, entre outras coisas, o recipiente quadrado no qual essas preocupações, para sempre ressuscitadas, foram vertidas à sombra das novas máquinas cintilantes do século XX.

Antes de eu deixar para trás os arquivos de Skinner para sempre, faço mais uma parada: para ver a famosa caixa de bebê na qual a filha de Skinner dormiu durante os primeiros dois anos e meio de vida. A própria caixa, fico sabendo, foi desmantelada, mas vejo uma foto dela, da revista Ladies’ Home Journal, que publicou um artigo sobre a invenção em 1945. Se você quiser aumentar sua reputação de cientista, Ladies’ Home Journal não é, provavelmente, a melhor escolha entre os canais de divulgação. O fato de Skinner ter optado por publicar suas supostas invenções científicas numa revista de segunda categoria para mulheres revela as péssimas habilidades dele em “relações públicas”.

 “BEBÊ NUMA CAIXA”

é o que diz o título do artigo e, debaixo dele, existe de fato uma foto de um bebê numa caixa, uma Deborah de aparência querubínea arreganhando os dentes, as mãos cobertas em laterais de Plexiglas. Mas, leia adiante. Na verdade, a caixa do bebê, fica-se sabendo, nada mais era que um cercadinho aperfeiçoado no qual a jovem Deborah passava poucas horas por dia. Com um ambiente controlado termostaticamente, ele prevenia assaduras de fralda e mantinha as vias nasais sem obstruções. Já que a temperatura tinha um ótimo ajuste fino, não havia necessidade de cobertores e, portanto, o perigo de sufocação, o pesadelo de todas as mães, foi eliminado. Skinner equipou a caixa da sua bebê com almofadas feitas de um material especial que absorvia os odores e a umidade, e, portanto, o tempo que uma mulher gastava na lavagem era reduzido à metade e ela ficava livre para usar as mãos para outros fins – isso numa era antes das fraldas descartáveis. Tudo parece humano, se não positivamente feminista. E, então, leia ainda mais adiante. Ao oferecer à criança um ambiente verdadeiramente benevolente, um ambiente sem perigos de punição (se o bebê caísse, não se machucaria porque os cantos eram almofadados para eliminar batidas duras), um ambiente, em outras palavras, que condicionava por oferecer recompensa pura, Skinner esperava criar uma valentona que acreditasse que poderia dominar seus arredores e, portanto, enfrentaria o mundo dessa maneira.

Tudo parece, sem dúvida, bem-intencionado, até positivamente nobre, e coloca Skinner firmemente em águas humanitárias. Mas então (e sempre existe um mas então nesta narrativa), li o nome que outros propuseram para a invenção dele: Condicionador de Herdeiro. Isso é ou aterrorizante ou apenas uma simples bobagem.


Existem milhares de milhares de “Deborah Skinners” listadas na rede, mas nenhuma delas dá resultado. Gostaria de encontrá-la, confirmar que está viva. Telefono para uma Deborah Skinner, autora de um livro de receitas intitulado Crab Cakes and Fireflies [Bolos de


caranguejo e vagalumes], uma Deborah de 4 anos de idade e vários números desligados. Telefono para Deborahs em floriculturas, Deborahs em esteiras, Deborahs vendendo imóveis e anunciando cartões de crédito, mas nenhuma afirma conhecer um B. F. Skinner.

Não, não encontro Deborah Skinner em nenhum lugar dos Estados Unidos, nem encontro registros de morte em Billings, Montana. Mas o que de fato encontro, da maneira tortuosa e associativa como a internet funciona, é sua irmã, Julie Vargas, uma professora de edu-cação da Universidade de Virgínia Ocidental. Eu disco.

– Estou escrevendo sobre seu pai – digo depois de confirmar que ela é uma descendente verdadeira. No fundo, barulho de panelas e frigideiras. Ouço o que parece uma faca – chop-chop – e a imagino, a outra garota de Skinner, aquela que perdeu o mito, cozinhando a mais simples das batatas, fatiando brilhantes lascas de cenouras numa velha tábua de cortar em algum lugar onde ninguém a vê.
– Ah! – ela responde – e sobre o que você está escrevendo? – Sem dúvida ouço suspeita em sua voz, um óbvio quê de defesa.
– Estou escrevendo grandes experimentos de psicologia e quero incluir seu pai no livro.
– Ah – apenas isso..

– Então, eu estava imaginando se você poderia me contar como ele era.
Chop-chop. Ouço, do lado dela, uma porta de tela mosquiteira fechar batendo.
– Estava imaginando – insisto – se você poderia me dizer o que pensa de...
– Minha irmã está viva e bem – ela afirma.

Naturalmente, eu nem mesmo perguntei sobre isso, mas é evidente que muitos outros o fizeram; é evidente que a pergunta a cansa; é evidente que ela sabe que toda consulta sobre sua família começa e termina nesse ponto, passando inteiramente por cima do próprio trabalho.

– Vi a fotografia dela na web – eu digo.

– Ela é artista. Vive na Inglaterra. É feliz no casamento. Ensinou o gato a tocar piano.




– Ela era próxima do seu pai?

– Ah, ambas éramos – diz Julie, e então faz uma pausa e consigo praticamente sentir as coisas brotando contra a pausa, recordações, sentimentos, as mãos do pai na sua cabeça. – Tenho uma tremenda saudade dele.
A faca está silenciosa agora; a porta com tela mosquiteira não bate mais e no espaço em que estavam esses sons vem a voz de Julie Skinner Vargas, uma voz carregada de memória. Uma espécie de incontinência nostálgica extravasa copiosamente; ela não consegue evitar.

– Ele tinha jeito com crianças. Ele as amava. Nossa mãe, bem, nossa mãe era... – e ela não terminou essa sentença. – Mas nosso pai... papai costumava fazer papagaios, papagaios de caixa que empinávamos em Monhegan, e ele nos levava ao circo todo ano, e nosso cachorro, Hunter, era um beagle, e papai o ensinou a brincar de esconde-esconde. Ele conseguia ensinar qualquer coisa, qualquer coisa, e então nosso cachorro brincava de esconde-esconde, era um mundo... aqueles papagaios, nós os fazíamos com barbantes e varetas e empinávamos no céu.
– Então, para você, ele era realmente um ótimo sujeito.

– Era. Ele sabia exatamente de que uma criança precisava.

– E quanto ao modo como você se sentia com todas as críticas que o trabalho dele provocou?
Julie ri. A risada é mais como um latido.

– Comparo-o ao Darwin. As pessoas rejeitavam as idéias de Darwin porque eram ameaçadoras. As idéias do meu pai são ameaçadoras, mas são tão grandes quanto as de Darwin.
– Você concorda com todas as idéias do seu pai? Concorda com ele de que somos apenas autômatos, que não temos livre-arbítrio, ou você acha que ele levou os seus dados experimentais longe demais?

Julie suspira.

– Você sabe, se meu pai cometeu um erro, foi nas palavras que escolheu. As pessoas ouvem a palavra controle e acham fascista. Se meu pai tivesse dito que as pessoas eram informadas por seus ambientes, ou inspiradas por seus ambientes, ninguém teria tido um problema. A verdade sobre meu pai é que ele era um pacifista. Era também um defensor das crianças. Ele não acreditava em NENHUMA punição porque viu em primeira mão com os animais como isso não funcionava. Meu pai é responsável pela revogação da punição corporal que vigorava na Califórnia, mas ninguém se lembra dele por isso.

– Ninguém se lembra – diz ela, sua voz se elevando, zangada – como ele sempre respondia a TODAS as cartas que recebia, enquanto aqueles humanistas – ela praticamente cospe a palavra –, aqueles supostos humanistas, a escola do “eu estou ok, você está ok”, eles nem sequer se davam ao incômodo de responder às cartas dos fãs. Eles estavam ocupados demais. Meu pai nunca estava ocupado demais para as pessoas.

– Não, não, ele não estava – eu digo, e de repente sinto um pouco de medo. Ela parece um pouco tensa, esta Julie, um pouco passional demais sobre o querido papai.

– Deixe-me perguntar uma coisa – diz Julie. – Sei dizer pelo tom de voz dela que a pergunta vai ser grande, mordaz e vai me colocar em apuros. – Posso lhe perguntar uma coisa? Fale honestamente.

– Pode!

– Você realmente LEU os trabalhos dele, como Beyond Freedom and Dignity, ou é apenas mais um erudito de fontes secundárias?

– Bem – eu digo gaguejando –, li MUITO do trabalho do seu pai, acredite em mim...

– Acredito, mas você leu Freedom and Dignity?

– Bem, não, eu estava me atendo aos textos puramente científicos, não aos tratados filosóficos.

– Você não pode separar a ciência da filosofia – Julie diz, respondendo à minha pergunta anterior. – Então, faça sua lição de casa – e agora ela parece qualquer mãe ou tia antiga, a voz calma, carregada de cordialidade, chop-chop, ela está de volta às cenouras, às velhas e simples batatas. – Faça sua lição de casa, e depois conversaremos.
Naquela noite, pus a bebê na cama. Peguei a cópia gasta marcada de cantos dobrados do Beyond Freedom and Dignity, o tratado que associo a outros textos totalitários, o tratado que, como o Mein Kampf, possuo há muito, mas que, de fato, nunca li, e agora começo.

“As coisas pioram continuamente e é desanimador descobrir que a própria tecnologia é cada vez mais falha. O saneamento e a medicina tornaram mais agudos os problemas de controle populacional. A guerra adquiriu um novo horror com a invenção de armas nucleares, e a busca intensa pela felicidade é em grande parte responsável pela poluição.”

Embora isso tenha sido escrito em 1971, eu bem poderia estar lendo um discurso de Al Gore, ou uma declaração de missão do Partido Verde de 2003. É verdade que, mais adiante no texto, Skinner diz algumas coisas perturbadoras como: “Pelo questiona-mento do controle exercido pelo homem autônomo e pela demonstração do controle exercido pelo ambiente, uma ciência do comportamento questiona os conceitos de dignidade e valor.” Mas esses tipos de declaração estão enterrados num texto imensamente pragmático. Skinner está claramente propondo uma política social humanitária enraizada em suas descobertas experimentais. Está propondo que apreciemos o imenso controle (ou influência) que nosso entorno tem sobre nós e, portanto, entalhemos esse entorno de tal maneira que “reforce positivamente” ou, em outras palavras, engendre comportamento adaptativo e criativo em todos os cidadãos. Skinner está pedindo à sociedade que modele as sugestões com maior probabilidade de extrair o melhor de nós mesmos, em oposição às sugestões que claramente nos confundem, sugestões como aquelas existentes nas prisões, nos lugares de pobreza. Em outras palavras, parar de punir. Parar de humilhar. Quem poderia argumentar contra isso? Deixe a retórica de lado. Não confunda conteúdo com controvérsia.
 O conteúdo diz: “Nossa era não está sofrendo de ansiedade, mas das guerras, crimes e outras coisas perigosas. As sensações são sub-produtos do comportamento.” Essa declaração é a soma total do antimentalismo desprezado de Skinner, sua insistência em que nos concentremos não na mente, mas no comportamento. Na verdade, não é diferente do dizer predileto da sua mãe: as ações falam mais alto que as palavras. De acordo com Skinner – e o autor new age Norman Cousins –, quando agimos vilmente, sentimo-nos vis, e não vice-versa. Não importando se você concorda ou não com isso, dificilmente dirá que é anti-humanitário. Mais adiante no livro, quando Skinner escreve que o homem existe irrefutavelmente em relação ao seu meio ambiente e nunca pode estar livre dele, estaria ele falando sobre correntes que confinam, como a maioria interpretou, ou simplesmente sobre a teia prateada que nos conecta a isto, isso e aquilo? Vi Jerome Kagan saltar debaixo da mesa, garantindo-me que tinha livre-arbítrio e poderia existir independente-mente de seu ambiente. Talvez ele esteja representando uma tradição mais problemática, patriarcal e solitária. Na visão de Skinner, parecemos estar entrelaçados e precisamos assumir responsabilidade pelos fios que nos ligam. Compare isso à feminista de hoje Carol Gilligan, que escreve que vivemos numa rede interdependente e que as mulheres percebem e honram esse fato. Gilligan, e todas as psicoterapeutas feministas que se seguiram, afirmam que somos relacionais, em oposição a estritamente separados, e que até que vejamos nosso mundo dessa maneira e construamos uma moralidade embasada nesse fato irrefutável, continuaremos a desmoronar. De onde Gilligan e Jean Baker Miller e outras teóricas feministas extraíram suas teorias? O espírito de Skinner paira sobre suas palavras; talvez ele tenha sido o primeiro psicólogo feminista, ou talvez as psicólogas feministas sejam skinnerianas secretas. De qualquer forma, vimos o homem de maneira demasiado simplista. Parece que o encaixotamos antes que ele conseguisse verdadeira-mente nos encaixotar.
 Julie, que está vindo a Boston a negócios, me convida a visitar a velha casa de B. F. Skinner, na estrada Old Dee, 11, em Cambridge. É um bonito dia quando chego lá de carro, os jardins florescendo altas espirais roxas. Julie é velha, bem mais velha do que eu esperava, sua pele translúcida e delicada, seus olhos verdes. Ela me deixa entrar. Esta é a casa de B. F. Skinner, para onde ele ia depois de longos dias no laboratório, durante os quais descobriu a natureza incrivelmente flexível da vida mamífera, nossos laços com nossas comunidades e todas as suas várias contingências. Condicionamento operante – uma frase fria para um conceito que poderia na verdade significar que somos escultores e esculpidos, artistas e obras de arte, responsáveis pelas deixas que moldamos.

A casa permaneceu na família. Falando de moldagem, sua atual ocupante é a neta de Skinner, Kristina, que, informa-me Julie, é compradora da Filene. A mesa da cozinha está coberta com catálogos da Victoria’s Secrets, fotografias de calcinhas de renda pretas colocadas lado a lado com velhas fotos de Pavlov e seu cão salivante.

Julie me leva para baixo, até o estúdio em que Skinner estava sentado logo antes, quase uma década atrás, de ser levado para o hospital e morrer. Ela abre a porta.

– Preservei tudo exatamente como estava quando ele foi levado – diz Julie, e acho que ouço lágrimas em sua voz.

O estúdio é bolorento. Contra uma das paredes está aquela enorme caixa amarela onde ele cochilava e ouvia música. Nas paredes estão fotos de Deborah, de Julie quando criança, de Hunter, o cachorro. Um livro enorme está aberto exatamente na página em que estava tantos anos atrás. Seus óculos estão dobrados na mesa. Suas vitaminas estão alinhadas, várias cápsulas compridas que ele nunca chegou a engolir naquele sombrio dia em que foi levado e não muito depois enterrado em sua caixa final, a verdadeira caixa preta, ossos agora. Toco as vitaminas. Ergo um copo com algum elixir azul evaporado em um resíduo ao redor da borda. Imagino que sinto o cheiro dele, de B. F. Skinner, o cheiro da velhice e da excentricidade, o suor rançoso, a saliva canina, o excremento de pássaro, a doçura. Seus arquivos estão abertos, leio os rótulos: “Pombos Jogando Pingue-Pongue”, “Experimento do Berço Arejado” e, então, em um arquivo bem atrás, “Sou um Humanista?”. Há um quê bem vulnerável em ter um arquivo que faz tão abertamente tal pergunta, talvez a pergunta central.

– Posso ler?

– Claro – Julie responde. Ambas estamos sussurrando agora, silenciadas no passado preservado. Ela o puxa para fora. Sua caligrafia

é apinhada e confusa, e bem pouco dela é legível. Leio: “para o bem do homem” e, então, várias frases adiante, “para preservar e sobre-viver, precisamos”, e mais para o fim da velha página deteriorando, ao que parece, “Eu me pergunto se tenho valor.”

Olho para Julie.

– Você vai arquivar formalmente este material? Ou vai apenas guardar aqui? – Os olhos dela são brilhantes na penumbra do estúdio, e isso, juntamente com o modo como cultua obsessivamente o mundo do pai, me leva a pensar que, para ela, ele é a única contingência que ela nunca questionará, a única sugestão ambiental à qual está verdadeiramente escravizada. Teria B. F. Skinner desejado tal devoção cega ou a teria estimulado a ir adiante, abrir mais o leque em busca de novos reforços que gerariam novas respostas que dariam origem a novos dados e idéias, enquanto os pombos bicam e os ratos continuam a correr incessantemente.

– Veja isto – diz Julie, apontando para uma mesinha ao lado de uma cadeira reclinante. – Aqui está o pedaço de chocolate que meu pai estava comendo logo antes de ir para o hospital – e quando olho para baixo, lá está, um pedaço de chocolate escuro sobre um prato de porcelana com uma verdadeira marca da mordida de B. F. fossilizada no naco.

– Quero guardar este chocolate para sempre. – Quanto tempo tem?

– Tem mais de dez anos e ainda está em boa forma.

Olho fixamente para ela. Um pouco depois, após ela sair do quarto, ergo o quadrado roído e o estudo cuidadosamente. Vejo precisamente onde a boca dele se encontrou com a borda do doce e, então, puxada por algum fio que não vejo, uma sugestão que nunca soube que estivesse vindo, ou talvez um traço de personalidade totalmente livre (pois não sei a resposta para isso tudo, não sei a resposta), levanto meu braço – ou meu braço é levantado – e imagino o chocolate em minha boca. Seria um chocolate velho, chocolate empoeirado, em meus dentes o gosto de algo muito estranho e ligeiramente doce.







































Hilton Caio - UFGD